13 de dez. de 2011

Melodrama e Coutinho

Em uma das críticas recentes sobre o novo filme de Eduardo Coutinho, Ricardo Calil decreta, como uma imensa novidade, que o documentarista é também o rei do melodrama.

Vale a pena conferir o que Calil coloca e mais especialmente o que o público comenta no blog.

Um comentário em particular me chamou atenção pois associava diretamente o melodrama ao poder de envolvimento da platéia, comentando os aplausos no final da sessão.

Calil considera melodrama em Coutinho filmes mais obviamente atravessados pelo melodramático: Edifício Master, Jogo de Cena e As Canções.
Desde de 2007, no mínimo, ano em que defendi minha tese de doutorado Realidade Lacrimosa, canto essa pedra dos diálogos de outros filmes de Coutinho, e outros documentários contemporâneos, com o melodrama. Um diálogo rico em dimensões reflexivas tanto sobre o filme quanto, e sobretudo, sobre as formas de perceber o mundo dos personagens que se performam (lembremos aqui do conceito de performance do Goffman)para o documentarista. Na performance, expoem-se os modos de narrar-se a si mesmo, a dimensão auto-fabulativa que nos acomete, sempre, e em especial, quando somos convocados a contar nossa história.
Nesse sentido, mais que nos filmes citados por Calil, lembro de Peões, onde a moral familiar e trabalhadora se apresenta melodramaticamente a cada depoimento em um jogo de espelhamento emotivo, identificatório entre os personagens e Lula. Mais especialmente, lembro dos trechos de Henok e de seu Antônio, onde ouvimos, a cada instante, Coutinho buscar na dimensão privada e familiar (a lembrança das esposas já falecidas)um trigger para a emoção, ligando assim, memória privada à memória coletiva, estabelecendo o engajamento passional entre obra e público.

10 de nov. de 2011

"Isso aconteceu", descrição e o efeito de real

E nesse caminho, pensando a questão da descrição como central para a construção dos discursos (sejam estes excessivos ou realistas) trabalhamos dois textos do Barthes:

Efeito do real e O discurso da história;

De cara ele já nos propõe uma questão, que já estamos tateando a algum tempo em nossas reuniões: O que separa uma narração ficcional de uma narração do real? Seriam elas realmente distante e, portanto, facilmente distintas? E qual característica forjaria essa "separação"?

Dentro da retórica realista, o efeito de real é essencial para que se atinja o propósito de um discurso que pretende reproduzir a realidade. Daí a descrição é utilizada para inserir elementos e objetos que construam essa realidade, sem necessariamente dar/conter sentido- a descrição como vazio de sentido. No entanto, Barthes logo aponta a inconsistência de tal premissa: o que supostamente é apenas constatativo (descritivo), imprime no discurso, pois age nele como significante, a marca da ideologia, da autoridade do "ato de fala".

A ilusão referencial (a ideia de "somos o real"/"isso aconteceu" ao qual discurso da história aspira e tenta construir através da descrição) , sustenta-se na ideia de que o referente, o real, não é significado pelo discurso; um referente onipotente que negaria significação.

Os detalhes, inseridos através da descrição, longe de serem vazios, indicam/geram leituras e/ou usos. Mesmo a "insignificância" tem seu significado.

Conversando chegamos duas formas de descrição que pretendemos analisar: uma a descrição adjetiva (clássica), da retórica do excesso, efeito de espetáculo/êxtase, que simboliza a moral oculta, satura e preenche; e a outra uma descrição substantiva (realista) que simboliza o efeito do real.

Outra questão: a Imagem é uma descrição ou uma narração? Ou seria ela ambas?

Propomos então um desafio para todos que queiram conosco embarcar nessa aventura:
- Onde está a descrição em um filme?
- O que é descrever em uma imagem/através de imagens e sons?
- O que caracterizaria uma descrição audiovisual de retórica realista? E a descrição de retórica excessiva, quais são suas marcas?

Coloco aqui, dois possíveis objetos de análise:

A abertura de True Blood, fortemente pautada em sensações

http://www.youtube.com/watch?v=vxINMuOgAu8

E a abertura da série inglesa Downton Abbey, na qual a função descritiva parece mais presente:

http://www.youtube.com/watch?v=3PNniUuVXGs

Podemos começar por eles, mas a ideia seria expandir a análise para filmes, principalmente os mais clássicos, e tentar construir respostas para as perguntas que colocamos.

3 de out. de 2011

Realist Excessive Vision

Nos últimos encontros temos nos dedicado à refletir sobre as tensões entre uma tradição realista e as matrizes do excesso. tensões de ordem narrativa, mas também de ordem de legitimidade na escala de valores e autorizações sócio-históricas da modernidade.
e novamente, é Peter Brooks quem nos ajuda nesse caminho a ser trilhado.
engraçado (aliás, sintomático) que o mesmo autor que inspirou configurar categorias para enxergar o excesso no emaranhado da imaginação melodramática, se mostra como um instigante o caminho inicial para começar a dar conta desse vasto e impreciso mundo do realismo. Ou, como ele mesmo diz, da visão realista (seu livro tem como título Realist Vision).

uma pista (que em minha tese de doutorado - Realidade Lacrimosa - já perseguia): as visões/imaginações realistas e melodramáticas não são tão polarizadaz assim e ambas são formadoras do projeto de modernidade. e não é acaso que um mesmo elemento - com funções e procedimentos por vezes distintos - seja a marca narrativas destas duas imaginaçõe: a descrição.

perguntas que saltam: que distingue a descrição excessiva da descrição realista? que vínculos - tão atávicos - se tecem entre a descrição como procedimento narrativo e centralidade da visualidade no projeto de modernidade (o tal Frenesi do Visível como nomeia Linda Williams)? que relações se estabelecem entre a descrição e os procedimentos de simbolização? como a descrição se comporta em narrativas tecidas em imagens e sons?

as perguntas crescem... e as pistas de respostas (ou mais problemas) parecem estar em Barthes (efeito de real e discurso da história), ainda no Brooks e ... (complete os espaços...).