23 de jun. de 2013

Entre o afeto e o excesso



Nesses tempos de imagens impactantes circulando pelas mídias (as alinhadas à construção da hegemônica do senso comum e as nem tanto assim) me lembrei de um conceito fundamental de Jane Gaines que diz respeito ao pathos da realidade (pathos of actuality). A pulsão passional das imagens do calor do momento, vistas e revistas. Da importância e impacto mobilizadores de sensações e sentimentos dessas imagens, da sua força bruta.
Pensei também nos usos da repetição incessante dessas imagens, usos que me parecem cambiar como inserts entre o afeto e o excesso.
Tenho voltado minha atenção para esse universo que se move entre essas duas margens: a do afeto e a do excesso. Tomos esses termos (afeto e excesso) como elementos distintos mas que mobilizam a dimensão corporal/sensorial do espectador.
Se de um lado desse rio de mobilizações, a margem do afeto se vincula a ideia de performance, entendida como expressão que se ampara no corpo e para o corpo ultrapassando o desejo de representação - “Na representação, a repetição dá luz ao mesmo; na performance, cada repetição encena um único evento”, escreve Elena Del Río.
Do outro lado, localizo a margem do excesso como movimento em direção ao desejo simbolizador que também se dá no corpo, mas reforçando (ainda que roce o campo da performance, no caso predominantemente espetacular) e instaurando representações e projeções empáticas em uma superdramatização de movimentos que expressam estados sensoriais e sentimentais que, dado a ver audiovisualmente, inspiram no espectador se não os mesmos estados, algo bem próximo (conforme é possível enxergar na tradição fundante dos gêneros do corpo, como aprendemos com Linda Williams).
No excesso, reinam performances reiterativas e saturadas que somam elementos (de efeito de imagem, de velocidade de cortes, de inserções musicais...) às imagens e aos sons na busca por compor símbolos que representem, que marquem, e ao fazê-lo, acabem por explicar e explicitar visões e narrações.
No afeto, impera o que quero chamar de uma dimensão performo-afetiva das personagens na relação/encontro com a câmera numa economia narrativa de elogio ao fragmento, ao instante, aos silêncios e às reticências, formando instantes de quadros que expressam mas não condensam explicitações ou explicações.
Mas entre uma margem e outra, circula o turbilhão de encontros (usos e apropriações) entre o afeto e o excesso. As imagens brutas das cenas das ruas pelo Brasil usadas repetidamente nas diversas mídias me parecem andar por essa circulação. Carregando emoções e sensações, cuja pulsão passional vai sendo (re)enquadradas nas diferentes visões sobre as manifestações, sobre o estado de coisas.
Mais uma vez, me interessa o que está fluindo por entre tais margens

2 comentários:

priscilamana disse...

Sem esquecer as questões do instantâneo que tanto tem contribuído para a aderência dessas imagens nas redes sociais. O conceito de excesso atrelado ao instantâneo trazem um resultado único para essas manifestações: maior engajamento, mais produção de imagens que geraram nessa semana um ciclo vicioso. As pessoas foram para as ruas engajadas pelo que viram com a esperança de também produzir novas imagens, não só pelo engajamento político, mas pela necessidade de se mostrar. Acho que essas manifestações tiveram um características muito peculiar frente aos outros devido a produção de imagens. Sem dúvida um excelente material para ser analisado.

Mariana Baltar disse...

Isso mesmo Priscila. pensando nisso também que lembrei do conceito da Gaines, pois ela fala exatamente dessas imagens produzidas a partir do instantâneo, do calor do acontecimento e a expressão calor é excelente pois mostra mesmo que é para além do racional e envolve também uma potente reação corporal! só não vamos esquecer que não se trata de dicotomizar engajamento político X engajamento pelo calor do momento, do mesmo jeito que não estamos opondo mente (razão) X corpo (emoção).