Nesses tempos de imagens impactantes circulando pelas mídias (as alinhadas à construção da hegemônica do senso comum e as nem tanto assim) me lembrei de um conceito fundamental de Jane Gaines que diz respeito ao pathos da realidade (pathos of actuality). A pulsão passional das imagens do calor do momento, vistas e revistas. Da importância e impacto mobilizadores de sensações e sentimentos dessas imagens, da sua força bruta.
Pensei também nos usos da repetição incessante dessas imagens, usos que me parecem cambiar como inserts entre o afeto e o excesso.
Tenho voltado minha atenção para esse universo que se move entre essas duas margens: a do afeto e a do excesso. Tomos esses termos (afeto e excesso) como elementos distintos mas que mobilizam a dimensão corporal/sensorial do espectador.
Se de um lado desse rio de mobilizações, a margem do afeto se vincula a ideia de performance, entendida como expressão que se ampara no corpo e para o corpo ultrapassando o desejo de representação - “Na representação, a repetição dá luz ao mesmo; na performance, cada repetição encena um único evento”, escreve Elena Del Río.
Do outro lado, localizo a margem do excesso como movimento em direção ao desejo simbolizador que também se dá no corpo, mas reforçando (ainda que roce o campo da performance, no caso predominantemente espetacular) e instaurando representações e projeções empáticas em uma superdramatização de movimentos que expressam estados sensoriais e sentimentais que, dado a ver audiovisualmente, inspiram no espectador se não os mesmos estados, algo bem próximo (conforme é possível enxergar na tradição fundante dos gêneros do corpo, como aprendemos com Linda Williams).
No excesso, reinam performances reiterativas e saturadas que somam elementos (de efeito de imagem, de velocidade de cortes, de inserções musicais...) às imagens e aos sons na busca por compor símbolos que representem, que marquem, e ao fazê-lo, acabem por explicar e explicitar visões e narrações.
No afeto, impera o que quero chamar de uma dimensão performo-afetiva das personagens na relação/encontro com a câmera numa economia narrativa de elogio ao fragmento, ao instante, aos silêncios e às reticências, formando instantes de quadros que expressam mas não condensam explicitações ou explicações.
Mas entre uma margem e outra, circula o turbilhão de encontros (usos e apropriações) entre o afeto e o excesso. As imagens brutas das cenas das ruas pelo Brasil usadas repetidamente nas diversas mídias me parecem andar por essa circulação. Carregando emoções e sensações, cuja pulsão passional vai sendo (re)enquadradas nas diferentes visões sobre as manifestações, sobre o estado de coisas.
Mais uma vez, me interessa o que está fluindo por entre tais margens
2 comentários:
Sem esquecer as questões do instantâneo que tanto tem contribuído para a aderência dessas imagens nas redes sociais. O conceito de excesso atrelado ao instantâneo trazem um resultado único para essas manifestações: maior engajamento, mais produção de imagens que geraram nessa semana um ciclo vicioso. As pessoas foram para as ruas engajadas pelo que viram com a esperança de também produzir novas imagens, não só pelo engajamento político, mas pela necessidade de se mostrar. Acho que essas manifestações tiveram um características muito peculiar frente aos outros devido a produção de imagens. Sem dúvida um excelente material para ser analisado.
Isso mesmo Priscila. pensando nisso também que lembrei do conceito da Gaines, pois ela fala exatamente dessas imagens produzidas a partir do instantâneo, do calor do acontecimento e a expressão calor é excelente pois mostra mesmo que é para além do racional e envolve também uma potente reação corporal! só não vamos esquecer que não se trata de dicotomizar engajamento político X engajamento pelo calor do momento, do mesmo jeito que não estamos opondo mente (razão) X corpo (emoção).
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